Quando fui convidada para contar minha história para o site As Valkiras, confesso que fiquei pensado: por onde começar? Afinal, são 43 anos de situações, desafios, alegrias (tantas!), decepções (tantas também), aprendizados e ensinamentos. Como, portanto, sintetizar tudo isso?

Entre tantas lembranças, comecei a refletir o que haveria em comum de tudo isso que me fez chegar aqui, para usar esse denominador comum para construir um enredo interessante e motivador.

Hoje, casada com uma pessoa incrivelmente parceira, mãe de dois lindos filhos e uma executiva realizada, percebi que o que mais fiz em minha trajetória até aqui foi identificar, criar e agarrar a maior parte das oportunidades que passaram pelo caminho. E quando elas não existiam, tratei de inventá-las.

Então, aqui lhes conto uma vida de oportunidades aproveitadas e, muitas vezes, inventadas.

Tudo começou muito cedo. Perdi a conta de quantas vezes mudei de escola quando criança. Minha família não tinha casa própria e isso não nos segurava por muito tempo no mesmo lugar. Foi com base nisso que acredito ter desenvolvido minha capacidade de adaptação. Sempre que chegava a uma nova escola, tratava logo de me enturmar e a marcar presença.

Lembro-me, como se fosse hoje, do meu primeiro dia de aula na escola pública em Juara (uma pequena cidade ao Norte do Mato Grosso). A cidade era nova, a escola era nova, os amigos eram novos, os costumes diferentes e as exigências elevadas. Tudo muito diferente para uma menina paulistana recém-chegada. Os primeiros dias foram interessantes, mas sentia que precisa preencher mais meu tempo e contribuir com algo que pudesse fazer a diferença. De fato, me diferenciar.

Certo dia, andando pelos corredores da escola, vi uma salinha empoeirada, fechada com pilhas e pilhas de livros. Me perguntei o que seria aquele lugar. Era a biblioteca da escola. Sem uso, desinteressante e totalmente desorganizada. Encontrei ali a minha primeira oportunidade de fazer a diferença. Encontrei o meu primeiro grande projeto.

Entrei na sala da diretora e pedi a ela a permissão de organizar a biblioteca da escola. Meu plano era usar as minhas tardes livres para limpar, catalogar e organizar aquele caos, e transformar aquilo em um lugar interessante para todos. Fiz! Simplesmente fui lá e fiz! Foram meses!!!! Fiquei exausta. Às vezes desanimava, às vezes me empolgava. Minha missão começou a despertar o interesse de outros estudantes da escola e, tempos depois, virou um mutirão de crianças a fim de colocar aquele projeto de pé. Recebemos doações, nos divertimos. Concluímos. Foi talvez um dos maiores prazeres que já senti na vida. Tinha 12 anos.

Descobri com esse episodio pré-adolescente que a vida é feita de desafios. E são eles que nos levam aonde quer que queiramos chegar. E foram os desafios agarrados que me fizeram chegar até aqui.

Nunca fui boa em nenhum esporte, por exemplo. Mas morando em uma cidadezinha (ainda em Juara) em que jogar vôlei era uma forma de ser aceita, tinha de dar um jeito. Não sabia jogar, mas sabia ensinar. Criei meu próprio time, que ficou em terceiro lugar no campeonato daquele ano.

Não sabia desfilar (também já tive minha vontade de ser modelo) e nem tinha atributos físicos satisfatórios. Mas fui lá, mostrei atitude no teste, e fui escolhida. E foi assim… jamais deixei passar uma oportunidade passar, sem antes ir lá, vencer o medo e tentar.

Comecei a trabalhar aos 14 anos em uma loja de sapatos. Isso foi logo que voltamos do Mato Grosso para São Paulo. O lugar era pequeno, simples e dono um maluco, diga-se de passagem! Mas o prazer de conquistar o meu primeiro salário compensou qualquer chateação. Depois disso, trabalhei como ajudante em uma grande rede móveis, como vendedora em uma confecção, como recepcionista e como atendente de telemarketing em uma empresa de cartão de crédito. Nunca fui de recusar trabalho.

Sempre achava que haveria algo a aprender. Além do mais, a necessidade de trabalhar para me sustentar, pagar meus estudos e ajudar a minha mãe nunca me permitiu ter o luxo de escolher muito.

Três anos após estrear no mundo corporativo, perdi o emprego pela primeira vez. Foram três vezes até agora. Fiquei arrasada, me senti inútil e sem chão. Entendi, com aquele episódio, que estava lidando com um mundo de gente grande e que precisaria de muito mais do que apenas ousadia para voar mais alto. Lembro-me bem que em meio aquele tsunami de decepção, precisaria retomar o foco rápido e seguir em frente.

Como forma de indenização, recebi do antigo empregador, o subsidio para um curso de recolocação no mercado. Coisa muito rara para a época. As pessoas que terminassem o curso, teriam seu resumo de qualificações distribuído para um mailing de possíveis empregadores. Das cinco pessoas que foram demitidas junto comigo, apenas eu e mais uma amiga, terminamos o curso. Os demais se sentiram ofendidos com a oferta e se recusaram a participar do processo de recolocação.

Ao colocar minha mágoa e desapontamento de lado, meu CV foi parar em um dos lugares mais incríveis que já trabalhei em minha vida. Começou naquele momento minha carreira no mercado financeiro.

Nessa época, com 23 anos, estava no terceiro ano da faculdade de Comunicação Social. Nem minha formação acadêmica nem minha experiência até ali seriam suficientes para eu me manter em um mercado competitivo e seleto como aquele.

Comecei imediatamente a fazer plantão extra na faculdade para aprender informática. Nesse período, não sabia nem mesmo ligar um computador. Pedi ao professor que me desse aulas extras, pois meu novo emprego exigia uma habilidade que teria de ser adquirida em pouco tempo. Consegui! Em pouco tempo, dominava todos os sistemas que precisava usar. Tempos depois, liderei um projeto embrionário de tecnologia com um grande banco e a empresa que trabalha. Liderei várias reestruturações de base de clientes e de websites em diversas empresas e bancos que viera a trabalhar. Quem diria!

Alguns meses depois, percebi que mais uma barreira era preciso enfrentar: o inglês. Achava que seria absolutamente impossível eu aprender inglês àquela altura. Não tinha grana para pagar uma escola, pois tudo que ganhava para o estágio estava comprometido para ajudar na casa, a pagar os meses de faculdade atrasada e ainda me manter. Mas não suportava mais a ideia de participar de reuniões sem entender metade delas. Foi então, que um belo dia, sentada tomando um café na copa da empresa, que a secretária de um dos diretores apareceu. Me veio imediatamente a ideia de pedir para que ela me desse aulas de inglês na hora do almoço. Em troca pagaria a ela R$ 100 por aula. Reuni o office-boy, algumas secretárias, assistentes e consegui assim 10 pessoas para comigo rachar a conta. Depois disso, não parei mais de estudar.  Anos mais tarde, ao receber como recompensa por uma meta batida, um belo fim de semana em um resort de luxo no nordeste, reverti o prêmio em um curso de aperfeiçoamento da língua inglesa no Canadá.

Hoje, longe de ter um inglês que atenda meu grau de exigência, o que parecia impossível para mim é o que possibilita que participe de diversos fóruns internacionais de educação financeira pela associação que trabalho e que ministre palestras mundo a fora. Quem diria!

Olhando esses vinte e nove anos de trabalho, vejo que o que me trouxe aqui foi minha vontade de ir sempre mais longe, de sempre achar que, não importasse a função que desempenhasse, do salário que ganhasse, o que fazia era relevante e motivo de orgulho.

Foi assim que, no final de 2014, criei, conciliando minha vida executiva, mãe e esposa, o Dinheiro com Atitude. Mais um sonho de fazer a diferença e de fazer diferente. Um projeto que nasceu da minha vontade de compartilhar anos de conhecimento adquirido, com aqueles que precisam colocar a vida financeira em ordem. Com aqueles que precisam acreditar mais em si, que precisam elevar a autoestima e entender que são capazes.

Aprendi nessa vida que as coisas são como nós as vemos. E que não há, muitas vezes, como mudar o outro ou a situação. Mas, que é sempre possível se reinventar, se desafiar e mudar nossa forma de ver e entender as coisas. Que se as coisas são muito mais oportunas do que podemos imaginar.

Um beijo!

Ana

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